Como Pierre Nora dizia....Lugar de Memórias.....


Caminhar pelos espaços de minha memória é viajar de forma intensa a momentos dos mais variados possíveis. Nesta data aqui olhando para uma estante cheia de livros observo minhas biografias da Família Real, dali tenho os sonhos e a militância de Leopoldina, os projetos culturais e econômicos de D. João VI, as fugidas e as ideias de D. Pedro I, o teor nacionalista de D. Pedro II, quase todo um acervo de memórias de uma família que por anos administrou o Brasil Não escondo aqui meu fascínio pelo Brasil Império e meu projeto pessoal de conhece todos os lugares relacionados a este período. As biografias me impulsionaram a passeios intensos, que oferecem a minha mente memórias ricas de curiosidades, que geram neste momento um cerco desconforto.

Me recordo da visita ao Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2015, a primeira vez que tive a oportunidade de fato conhecer o local que antes era só por foto. Um conjunto de paredes que escutou os toques de D. Pedro I com violino, que ressurgia inclusive no seu projeto de criação de um Hino, que futuramente ficou conhecido como Hino da Independência. Paredes que conheciam algumas fugas do nosso primeiro imperador, espaços que foram testemunhas de grandes embates políticos, sou capaz de imaginar José Bonifácio com seu discurso de independência, da busca constante do poderia autônomo do nosso país. Voltando mais no tempo, fico tentando saber a reação de D. João VI em observar a arquitetura do local e ter conseguido comprar de um traficante de escravo um palácio que em 1808 estava, de certa forma, recém construído (1803).

Sempre fui daquelas pessoas que observam lugares e tentam saber o que será que aconteceu ali, deve ser um lado curioso que me acompanha desde pequena. Lembro quando vi pela primeira vez a coleção egípcia, por um tempo pensei como uma criança fascinada: pessoas a 5.000 anos fizeram isto e agora estou aqui olhando! Me recordo que neste dia, acompanhada de um amigo, questionamos sobre o conceito de Tempo, sentido este que nos mostra que nosso país não sabe lidar. Que tempo o Museu de fato teve? Estamos maduros para ter posse de peças tão raras? O Estado que não valoriza o cuidado com sua história, não respeita quem realmente são.

No mesmo dia, fiquei perplexa em olhar um crânio de 20.000 anos, ah! neste momento me recordo em ficar arrepiada, e como sempre comecei a conversar com a minha mente: o que será que essa pessoa fez? se eu pudesse ter acesso as suas memórias, o que eu viria? A imaginação tomando conta, deixando de lado os procedimentos históricos, apenas sendo ali uma criança brincando com seus lugares de memória, foi muito intenso este momento. Continuando em minha saga, ao ver o espaço em que a nossa independência foi assinada, ainda mais pela grande Leopoldina (adoro!), foi majestoso!

As lembranças são acompanhadas de cinestesia, aroma, visual, auditivo, tudo! Aquelas paredes nos contam cada fato que saímos dela lá como se tivéssemos lido vários livros! Hoje elas são apenas imagens em minha memória, mesmo com suas paredes restantes um novo aroma ali se impera, o de madeira consumida pelo fogo, pelo descaso, pelo jeitinho brasileiro político! Luzia não mais pode penetrar nossas mentes, dificilmente podemos puxar nossa criança interior para dialogar com ela! Não mais podemos ter o Egito tão próximo, os sapatos de um rei africano, as paredes que testemunharam um jovem imperador a compor suas melodias e seus canticos de saudades de sua terra natal! As inspirações de uma mulher que foi por muito tempo julgada pela história, como Leopoldina. Agora Pierre Nora nos saúda com suas reflexões sobre como esses lugares acendem uma saudade, um pertencimento e agora um luto!

Aos pesquisadores, funcionários e pessoas envolvidas com o Museu, meu mais sincero apoio!

Aos brasileiros que conheceram o Museu, revivam sempre seus lugares de memória!

Aos brasileiros que não conheceram, resgatem pelas memórias, valorizem os que ainda restam!

Aos gestores públicos, em seus mais diferentes cargos, o meu repudio, mas a minha torcida para que acordem, cuidem de nossa história!

Ao sentimento que tenho neste momento, meu mais profundo silêncio, este que grita internamente!

Luto!