Diferença Social: "Até que a morte vos iguale"


Fotografia tirada no Cemitério dos Escravos de São José do Barreiro em 2010, o local foi meu objeto de estudo no Trabalho de Conclusão de Curso em História, publicado em 2008.

Em tempos em que vivemos opiniões das mais antagônicas possíveis, em que buscamos nossas diferenças, nada melhor do refletir sobre a Morte e seus efeitos no campo da sociologia

E somos Severinos/ iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, da mesma morte Severina: que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença/ é que a morte Severina ataca em qualquer idade,/ e até gente não nascida (João Cabral de Mello Netto)

Segundo José Luiz de S. Maranhão (1985), a morte é um fato natural, assim como o nascimento, a sexualidade, o riso, a fome ou a sede e, como tal, é transclassista. Diante dela todos os homens se igualam. O sentido da morte é o mesmo, não se considera o status da pessoa que morre, pois todos têm o mesmo fim: jovens e velhos, ateus e crentes, homens e mulheres, brancos e negros; sejam ricos ou pobres. Relativizando todas as condições sociais, a morte demonstra a absoluta igualidade entre os homens, nivelando-os ao mesmo destino. Entretanto, apesar dessa constatação, a forma de ser sepultado ainda se apresenta como diferenciação social, e isso pode ser comprovado ao se observar os túmulos

[...], o significado do fenômeno da morte não se esgota em sua dimensão natural ou biológico. Ela comporta também, como tal, ela representa um acontecimento estratificado. Todos morrem é certo, contudo a duração da vida e as modalidades do fim são diferentes segundo as classes a que pertencem os mortos. (MARANHÃO, 1985:21)

A desigualdade entre os homens diante da vida não se traduz somente na diferença social diante da morte, mas prolonga-se mesmo após o seu acontecimento. Durante o período medieval, até por volta do século XVIII, encontramos presente a crença muito difundida de que ser enterrado próximo aos túmulos dos santos ou de suas relíquias, perto do altar dos sacramentos, sob as pedras da nave ou do claustro do mosteiro (túmulo ad sanctos), garantia ao morto uma intervenção especial dos santos e direito assegurado de salvação.

[...] é evidente que o espaço sagrado que compreendia a igreja e o mosteiro, pode ser limitado, não poderia comportar todos os “melhores”, isto é, aqueles que pudessem desembolsar somas consideráveis para esse fim (MARANHÃO, 1985:31).

De acordo com Maranhão, a partir da segunda fase da Idade Média, viu-se acrescentar uma novidade a esse quadro: a sepultura ad sanctos, por si só, já não garantia a certeza da vida e eterna. Os indivíduos começavam se sentir inseguros frente ao risco ameaçador de virem a ser condenados a “ferver no mármore do inferno”. A solução mediante essa mentalidade era “curar” sua alma, por meio de ritos espirituais, usufruindo-se ao máximo dos recursos financeiros adquiridos em vida.