A Santificação da Morte: Os Moldes da Igreja Católica


Fonte: Charge do século XIX, retirada da Revista Illustrada em 04 de março de 1876 Referência: https://zonadaaleatoriedade.wordpress.com/2018/08/30/as-mudancas-das-mentalidades-sobre-a-morte-no-seculo-xix-no-brasil/, acessado em 14/04/2019

O enorme investimento material e espiritual no bem morrer, em particular o sepultamento, tornou-se objeto de crítica dos adeptos de uma ou outra visão da morte, a visão “civilizadora”, que rapidamente ganhava corpo no Brasil na década de 1830. O “bem morrer”, na visão de João José Reis, em sua obra, A Morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, ele nos remete que são muitas as sociedades nas quais se prevalece a noção de que a realização de rituais fúnebres adequados é fundamental para a segurança de mortos e vivos.

[...] as pessoas para quem não se observam os ritos funerários são condenadas a uma penosa existência, pois nunca podem entrar no mundo dos mortos ou se incorporar à sociedade lá estabelecida. Estes são os mais perigosos dos mortos. Eles desejam ser reincorporados ao mundos dos vivos,e, porque não podem sê-lo (sic), se comportam em relação a ele como forasteiros hostis. Eles carecem do meio de subsistência que os outros mortos encontram em seu próprio mundo e conseqüentemente devem obtê-los à custa dos vivos. (VAN GENNEP, 1978 p. 44)

Durante a idade média e meados do século XVIII, havia uma relação de proximidade entre vivos e mortos na Europa. A morte era pública e o morrer em casa, próximo a familiares e amigos, era o essencial. No Brasil colonial acontecia da mesma forma, a morte era vista. As pessoas eram veladas em casa e enterradas nas cercanias das igrejas em solo sagrado pertencente as suas irmandades, estando assim mais próximo de Deus e da salvação eterna. Os cortejos fúnebres cortavam a cidade, quanto mais influente e rico o defunto, maior a pompa e o número de pessoas nos seu funeral.

Segundo REIS (1991) se o morto passa ao outro mundo feliz e plenamente, ele poderá interceder pelos vivos junto aos deuses, inclusive facilitando-lhes a futura incorporação da na comunidade dos mortos. O catolicismo humaniza as almas, trabalhando a santificação das mesmas. Neste processo podemos começar a analisar o ritual mortuário dos escravos libertos em nome de Deus, considerando a busca por uma justificação do movimento abolicionista.

No passado as pessoas se preparavam processualmente para a morte, que era comum no imaginário católico no século XIX, fazia-se presente nas discussões cotidianas, as crianças não eram proibidas de viverem tais situações. Ao contrário do sexo, que na época era um grande tabu, a morte era normal ser vivida e preparada. Atualmente falar de sexo é natural, mas lidar com a morte virou um tabu. No espaço destas últimas cinco décadas assistimos a um fenômeno curioso na sociedade industrial capitalista: à medida que a interdição em torno do sexo foi se relaxando, foi se relaxando, a morte foi se tornando um tema proibido, uma coisa inominável. A obscenidade não reside mais nas alusões às coisas referentes ao início da vida, mas sim aos fatos relacionados com seu fim, uma verdadeira inversão.

A Igreja Católica fornecia manuais com as formas de “bem morrer”, que tinham como objetivo organizar um imaginário social fundamentado pelo temor acerca da morte. Desta forma, o medo da morte era uma aprendizagem diária, a Igreja transmitia aos seus fiéis a possibilidade de salvarem ou não suas almas, de acordo com certas atitudes. O padre português Bernardo Queirós recomendava em seu manual publicado em 1802, que os católicos na hora da morte não esquecessem de seus parentes mais necessitados e também aconselhava que não morresse deixando qualquer bem indevidamente adquirido (REIS, 1991).

Fonte: – Frontispício de Mestre da Virtude. Referência: Eliane Cristina Deckmann Fleck, Artigo: “Se viveres como louco, sabes que hás de morrer sem juízo”: as orientações para o bem morrer na literatura cristã portuguesa do século XVIII, acessado em 14/04/2019, http://www.scielo.br/pdf/rbh/v35n70/1806-9347-rbh-2015v35n70010.pdf

A boa morte significava que o fim não chegaria de surpresa para o indivíduo, sem que ele prestasse contas aos que ficavam e também instruísse sobre como dispor de seu cadáver, de sua alma e de seus bens terrenos. Um dos meios de preparar, principalmente mas não exclusivamente entre as pessoas mais abastadas, era redigir um testamento. Essa providência, segundo REIS (1991), poder ser entendida como um rito inicial de separação. Em um levantamento, realizado na Divisão de Museus de Taubaté, em testamentos do período de 1823 à 1867, no ano de 2008, pudemos associar os motivos ligados diretamente ao imaginário católico: Uma cartilha de meados do século XIX recomendava como regra de bem viver que os fiéis fizessem seus testamentos enquanto gozassem de boa saúde. Mas era principalmente por ocasião de doenças graves que a morte passava a ser temida, ou simplesmente lembrada. Houve casos que o testador conseguiu enganá-la por muitos anos após a crise de saúde ou de consciência (REIS, 1991 p. 95) Como podemos observar o imaginário católico no entorno da morte envolve especificamente busca da santificação da alma humana e isto encontramos nestes documentos da Igreja como a cartilha citada por REIS (1991), em que ela aplicava os moldes do bem viver.

A cartilha aplicava que deveriam se preparar para a morte, e como podemos observar no trecho do Testamento de Francisca Aguiar que a mesma preparou sua morte seguindo os preceitos da cartilha apresentada pela Igreja Católica sobre o bem viver, e por isto ao mesmo tempo deixa no decorrer da leitura do documento algumas posses de terras para a Matriz de Bananal, colaborando para a apliação de seu “terreno nos céus”. De acordo com a leitura da Cartilha do “Bem Viver “do século XIX da Igreja Católica, podemos listar dois sumários: Espirituais: 1. Ensinar os ignorantes; 2. Dar bom conselho; 3. Punir os transgressores com compreensão; 4. Consolar os infelizes; 5. Suportar as deficiências do próximo; 6. Orar a Deus pelos vivos e pelos mortos.

Corporais:

1. Resgatar cativos e visitar prisioneiros; 2. Tratar dos doentes; 3. Vestir os nus; 4. Alimentar os famintos; 5. Dar de beber aos sedentos; 6. Abrigar os viajantes e os pobres; 7. Sepultar os mortos. As Misericórdias proliferaram-se rapidamente por todo o Império, dada a importância que elas adquiriram na vida social da população. Alem da rápida proliferação das Misericórdias, cresceu também o número de outras irmandades, o clero e a burguesia se propuseram a criar ou programar seus próprios sodalícios. Nesta concepção os cativos passaram a serem inseridos no quadro de misericórdia.

Os sacramentos eram parte essencial da preparação para a morte, o moribundo deveria receber a extrema-unção, a penitência e a eucaristia, sendo o primeiro o mais importante. A extrema-unção, tanto para a população livre como para a população cativa, era um sacramento, por excelência, purificador, que, paradoxalmente, preparava a entrada do cristão no além e, ao mesmo tempo, podia exercer um efeito de restaurar a saúde debilitada dos doentes. A administração da Eucaristia aos enfermos é ordenada aos sacerdotes para que aplicassem a todos os seus fregueses, tendo estes ainda a obrigação de investigarem, na sua paróquia, se há alguém que precise, o procurasse e administrasse o sacramento. Caso alguma pessoa viesse a morrer sem a Eucaristia por culpa ou negligência do padre, este seria preso e suspenso do seu ofício e dos benefícios por um ano e demais penas que lhe imputassem os visitadores. Podemos notar, através da leitura de alguns assentos de óbito, a importância de se receber os ditos sacramentos, sendo que a ausência de algum destes ritos vinha sempre acompanhada de justificativa.

A santificação da morte vem como forma de compreender a divinização da alma humana como filhos de Deus, na mentalidade católica, apesar da transformação ocorrida no século XXI, ainda permanecem rituais fúnebres de santificação da morte.

Referências:

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente – da Idade Média aos nossos dias. Livraria Francisco Alves Editora S.A. 1977.

REIS, João José. A morte é uma festa: ritos funerários e revolta popular no Brasil do século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 1978.