Educação Patrimonial: Perspectivas e Conceitos


Fonte: Paisagem de Ouro Preto Referência: Acervo da Autora, fotografia da Autora

Esta implícito na sociedade a memória coletiva, suas produções culturais, suas linguagens, suas perspectivas e interpretações do tempo e do espaço, constituindo Patrimônios Históricos e Culturais Materiais e Imateriais. Preservar estes bens, que são públicos porque fazem permanecer viva a coletividade impressa na territorialidade, é fundamental para a valorização da identidade histórica e, por conseguinte, oportunizar um sentimento de pertencimento àquela comunidade, fomentando também os cuidados que a população terá para com o bem e para com a memória que ele se resguarda.

Para isto, apresentamos a Educação Patrimonial como instrumento de valorização e preservação do Patrimônio Cultural, para ser desenvolvida em toda a sociedade, com foco em escolas, instituições comunitárias, comunidade, ou seja, em todas as esferas sociais que participam da dinâmica sociológica local. A falta de uma consciência histórica-cultural torna a preservação ineficaz, promovendo a desvalorização e o desmonte das territorialidades de memórias, implicando assim com o apagamento da coletividade e tornando expresso cada vez mais a perda do sentindo de pertencimento.

Para Reginaldo Santos (1996), os processos de entendimentos sobre a concepção de patrimônio não são somente um reflexo das ações somadas de diversos agentes no processo de transformação de idéias, e sim o resultado de invenções discursivas previamente formuladas e com o propósito de formar uma consciência histórico-cultural definida.

Tomando a diferenciação de Riegl, ressalta Choay que a diferença fundamental entre o monumento e o monumento histórico é que o primeiro foi criado deliberadamente para relacionar a memória e o presente dos indivíduos, ao que o último é criado posteriormente à construção de determinada estrutura, no momento em que esta é preservada entre várias edificações existentes (POSSAMAI, 2000:15)

Para dialogar sobre essa diferenciação é necessário citar neste texto a obra “Documento e Monumento”, de Jacques Le Goff, em contraponto à obra Alegoria do Patrimônio, de Françoise Choay. Segundo Le Goff, monumento é aquilo que pode ser evocado do passado, e documento é algo que é selecionado pelo historiador. Choay oferece a mesma definição para monumento, porém o primeiro faz a evocação do passado, e o segundo o considera como lembrança. Em termos históricos, Le Goff quer demonstrar que o monumento é um vestígio humano de uma Memória, e Choay considera o monumento como uma simples lembrança de uma determinada característica da sociedade.

Tais matérias da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: os monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador (LE GOFF, 2000:103)

A veracidade da representação do monumento é o que se questiona até os dias de hoje. Segundo o próprio Jacques Le Goff, o monumento é como um utensílio de pesquisa, tornando-se um documento. Porém a verdade conduz o pesquisador a questionar o documento inúmeras vezes, considerando a vida de seu autor, e, principalmente, o contexto em que viveu. Na carta de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, sabe-se que ele descreve os ameríndios da América do Sul Portuguesa, como pode ser observado neste trecho: “Dali avistaram índios que andavam pela praia. Uns sete ou oito [...] A feição deles é serem pardos, quase avermelhados, de rostos regulares e narizes bem feito; andam nus, sem nenhuma cobertura; nem de cobrir nenhuma coisa, nem de mostrar suas vergonhas. E sobre isto são tão inocentes” Neste trecho, a verdade deste documento é colocada em questão. Sabe-se que Pero Vaz Caminha era um homem honrado, com extrema fé na doutrina católica. Necessariamente, os ameríndios estavam preocupados em mostrar suas “vergonhas” ou simplesmente eram inocentes? O questionamento que se faz a um documento facilita os estudos diante de um monumento que se tornará um patrimônio e que conduzirá a estudos sobre uma identidade nacional específica.

Iniciada na Idade Média, consolidada no início do Renascimento, enunciada pelos grandes eruditos do século XIX, a crítica documental tradicional foi essencialmente uma procura de autenticidade. Ela persegue os falsos e, por conseqüência, atribuí uma importância fundamental à datação (LE GOFF, 2000:110).

Em um outro artigo, de minha autoria, com o título Patrimônio Histórico: Estudando a Memória do Coletivo, eu apresento que "Monumento pode ser material ou imaterial, quando se representa uma coletividade", buscando neste ponto analisar o conceito como constante produção coletiva de quem somos, imersos no choque de várias essências, mas imprimindo constantemente nossa real característica unificada pelo Nós, surgindo dos mais diferentes Eu's. Desta forma, percebemos que o principal papel do Monumento, ou da imaterialidade cultural é resguardar a memória daqueles que possuem direta ou indiretamente alguma ligação como o patrimônio em si ou com os processos que o constituíram monumento, ou ainda, que fazem parte do contexto em que tal símbolo está inserido.

Para POSSOLI (2008), a Educação Patrimonial objetiva um método de ensinar os indivíduos de todas as idades, a conhecer a si mesmo, ao seu grupo e seu patrimônio, compartilhando esse conhecimento com o outro. A preservação do patrimônio cultural, enquanto herança da coletividade, construído através de todas as vivências individuais, só se efetiva a partir do processo de implantação da Educação Patrimonial, sendo esta o principal instrumento de valorização e consequente preservação dos bens públicos de grande relevância cultural.

Trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento individual e coletivo. A partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos,sentidos e significados, o trabalho de Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto desses bens,e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos,num processo contínuo de criação cultural. (HORTA; GRUMBERG; MONTEIRO, 1999, p. 06)

Podemos analisar que a Educação Patrimonial se apresenta como um processo sistemático e permanente, em constante dinâmica, por meio do qual os agentes sociais se apropriam dos bens culturais e entendem a necessidade da valorização e preservação dos patrimônios materiais e imateriais, colocando-se como agentes diretos. Desse processo também decorre o fortalecimento das identidades individuais e coletivas. Nas individuais, o Olhar sob aquele Monumento se transforma e o indivíduo passar a analisar de forma diferente.

A Educação Patrimonial, em suas formas de mediação, possibilita a interpretação dos bens culturais, tornando-se um instrumento importante de promoção e vivência da cidadania.Consequentemente, gera a responsabilidade na busca, na valorização e preservação do Patrimônio. HORTA, GRUMBERG e MONTEIRO (1999), utiliza o termo “alfabetização cultural” para informar que a Educação Patrimonial possibilita ao indivíduo realizar a leitura do mundo que o rodeia, levando-o a compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que se está inserido.

Fonte: Esquema de Produção do Patrimônio Cultural Referência: Produzido pela própria autora para o Artigo.

Fonte: Esquema para Promoção da Educação Patrimonial Referência: Produzido pela própria autora para o Artigo, com adaptação às Políticas do IPHAN,

A educação patrimonial na sala de aula é algo recente que, aos poucos, está se incorporando ao currículo escolar oficial. Isto acontece porque se tornou visível, graças a atuação de vários estudiosos como Horta, Matozzi, Paim e outros, que a educação patrimonial auxiliar na mediação e propicia aos diversos públicos a possibilidade de interpretação dos bens culturais,atribuindo-lhes sentidos, e estimulando a comunidade a exercer a cidadania e a possuir uma responsabilidade social de compartilhamento, preservação e valorização dos patrimônios material e imaterial que estão, como já vimos, ao nosso redor.

Cultivar o sentimento de pertencimento é o principal passo para uma efetiva educação patrimonial com vistas a preservação e valorização do bem. Talvez, ao perceberem e entenderem que os monumentos, prédios, saberes e fazeres são seus, as pessoas passem a não pichar, quebrar, menosprezar e destruir os bens públicos como vemos acontecer quase que diariamente com nossas escolas e prédios públicos. (PAIM,2010)

Paulo Freire (1997), nos apresenta que o homem é um ser educável, por isso é importante proporcionar efetiva educação para a memória e o patrimônio, compreendendo que o homem está no mundo e com o mundo, nos tornando assim capazes de se relacionar, e ainda, que estas relações não se dão apenas com os outros, mas se dão pelo mundo, com o mundo e pelo mundo. O autor ainda nos traz que o homem compreende a realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar assim soluções. Neste ponto, concluímos que a Educação Patrimonial nos torna capazes de compreender o Nós com mais ênfase, dialogando diretamente com Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao propor como um dos eixos para atuações comas Habilidades o Eu, O Outro e o Nós. Em um futuro artigo trataremos a relação da Educação Patrimonial com a BNCC.

Referências

CHOAY, Françoise. A Alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade/ Editora UNESP, 2001.

EDUCAÇÃO Patrimonial: orientações ao professor. Caderno Temático 1. João Pessoa: IPHAN-PB, 2011.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 1999.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: UNICAMP, 2000

POSSAMAI, Zita Rosani. Nos Bastidores do Museu: Patrimônio e Passado da Cidade de Porto Alegre. ESTEdições, 2000.