Os Negros na Revolução Constitucionalista de 1932 - Uma Reflexão


Inicialmente escrevi este artigo em 2013 para o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), tendo como recorte o papel dos Negros na Revolução de 1932, em São Paulo. Importante ressaltar aqui que estou aos poucos trazendo para meu site textos que já havia produzido e ao final estou apresentando os links das publicações originais. Vamos lá conhecer?

Legião Negra - Fonte: Acervo de Oswaldo Faustino

Dentro do cenário já conhecido da Revolução Constitucionalista de 1932, os negros não aderiram tanto ao movimento, pois muitos eram vanguardistas e operários, classes que davam grande apoio político a Getúlio Vargas, e um dos pontos do movimento era contra este governo. A Historiografia Brasileira mais antiga não oferece um respaldo acadêmico sobre os movimentos negros pós abolição, o que tem alterado entre os novos pesquisadores. Dentro desta temática proposta temos alguns pontos que demonstram que mesmo que os negros representaram 1/3 dos soldados paulistas, estes foram muito importante dentro do processo.

Vamos focar agora nossa atenção para a chamada Legião Negra, fundada por Joaquim Guaraná de Santana. Como se conhece a participação dos negros na República Brasileira foi uma conquista processual, e no contexto da década de 30 temos a Frente Brasileira Negra. Trata-se de um movimento paulista, que defendiam as coisas dos negros em diferentes temáticas, principalmente as sociais e políticas. Porém, como já explicitado, a maioria dos membros da FBN, eram vanguardistas e operários, dando apoio a Getúlio Vargas. O presidente era um grande defensor dos direitos trabalhistas, sendo autor da CLT, por isso o maior movimento não ofereceu apoio a Joaquim Guaraná de Santana, quando este foi solicitar ajuda. Joaquim Guaraná de Santana era membro da FBN, porém rompe com esta e funda da Legião Negra, conhecida também como Pérola Negra.

Dentro da metodologia de organização de batalhões, os soldados nomeavam seus grupos e a Legião Negra denominou seus grupos com nomes de homens negros e mestiços importantes da História do Brasil, como Zumbi, Antônio Pereira Rebouças e Henrique Dias. O movimento Legião Negra se tornou um marco de grande importância para uma profunda reflexão dos negros no processo democrático, alguns jornais da época passaram a relatar fatos ligados ao movimento negro dentro da Revolução Constitucionalista de 1932, sendo o nosso foco o jornal A Gazeta, trazendo dois episódios, sendo o primeiro sobre uma reflexão da Legião Negra e o segundo ponto, de uma mulher negra que se vestiu de homem para participar da luta:

Os patriotas pretos estão se arregimentando - Já seguiram vários batalhões - O entusiasmo na Chácara Carvalho - Exercícios dia e noite - As mulheres de cor dedicam-se à grande causa. [...] Também os negros de todos os Estados, que vivem em São Paulo, quando o clarim vibrou chamando para a defesa da causa sagrada os brasileiros dignos, formaram logo na linha de frente das tropas constitucionalistas. A epopéia gloriosa de Henrique Dias vai ser revivida na luta contra a ditadura. Patriotas, fortes e confiantes na grandeza do ideal por que se batem São Paulo e Mato Grosso, os negros, sob a direção do Dr. Joaquim Guaraná Sant´Anna, tenente Arlindo, do Corpo de Bombeiro, tenente Ivo e outros, uniram-se, formando batalhões que, adestrados no manejo das armas e na disciplina vão levar, nas trincheiras extremas, desprendidos e leais, a sua bravura, conscientes de que se batem pela grandeza do Brasil que seus irmãos de raça, Rebouças, Patrocínio, Gama e outros muitos tanto dignificaram. Os nossos irmãos de cor, cujos ancestrais ajudaram a formar este Brasil grandioso, entrelaçando os pavilhões auri-verde e Paulista, garbosos, ao som dos hinos e marchas militares, seguem cheios de fé, ao nosso lado, ao lado de todos os brasileiros que levantaram alto a bandeira do ideal da constitucionalização, para a cruzada cívica, sagrada, da união de todos os Estados sob o lábaro sacrossanto da pátria estremecida. ( Jornal A Gazeta, 23 de Julho de 1932 – Os Homens de Cor e a Causa Sagrada do Brasil)

Antônio Gramisc, um teórico político, nos mostra que a sociedade é divida em blocos históricos e que estes agem de acordo com seus interesses e por isso a tendência é sempre classificarmos os grupos sociais por sua cultura e conflitos de interesses. Neste caso o “bloco histórico” dos Homens de cor vem utilizar o contexto da guerra na busca de sua legitimação como ser social dentro do cenário nacional, esta passa ser a verdadeira função da Legião Negra.

O Jornal, A Gazeta, de 05 de setembro de 1932, vem relatar o caso de Maria José Bezerra, cozinheira da família Penteado Mendonça. Alistou-se, fazendo-se passar por homem para poder lutar pela causa da constitucionalidade brasileira; exemplo maior de mulher voluntária no Movimento Constitucionalista de 32. Coloca o jornal: Uma mulher de cor, alistada na Legião Negra, vencendo toda a sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entrincheiramento na frente do sul, descrevendo a página mais profundamente comovedora, mais cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista, ao desafiar a morte nos combates encarniçados e mortíferos para o inimigo, MARIA DA LEGIÃO NEGRA! Mulher abnegada e nobre da sua raça (Trecho do jornal) Para terminar nossa reflexão sobre a participação do negro da revolução, não podemos deixar de explicitar que existem poucas obras sobre isso, considerando apenas a chamada A Legião Negra, a luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, de Oswaldo Faustino. Em depoimentos, muitas comunidades reclamam da falta de material da participação dos negros em muitos fatos históricos.

Fonte: https://ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/3646/os-negros-na-revolucao-constitucionalista-de-1932--uma-reflexao