Resolução de Conflitos e Educação Científica


A seqüência de episódios violentos envolvendo o espaço escolar não deixa dúvida quanto à necessidade de se trazer este tema à grande arena de debates da educação brasileira. Os acontecimentos que se repetem nas diversas regiões do país, considerando suas características peculiares, expõem uma real dificuldade brasileira pela qual já passaram outros países, principalmente com grandes diversidades sociais, econômicas e culturais.

A educação, apesar da existência de programas importante como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF), vem sofrendo com a falta de políticas públicas de longo prazo e efetivas que atendam às necessidades da comunidade, vem sendo esvaziada pelo afastamenteo de bons docentes por conta do desprestígio e da perda significativa de salários, vem sendo sucateada pela ineficácia dos sistemas de gestão e por recursos cada vez mais reduzidos, vem se tornando cada vez mais profanada quando a história nos ensinou sobre uma escola cercada de respeito e pertencimento e sacralidade. Neste contexto, já começamos a observar que o não se sentir pertencido ao espaço, identificado como agente importante nessa relação de comunidade escolar, torna os indivíduos arredios, sucateados em seus pensamentos, isto vai oportunizando explicitamente um ambiente de tensões e conflitos.

Para Chrispino (2002), conflito é toda opinião divergente ou maneira diferente de ver ou interpretar algum acontecimento. A partir disso, todos os que vivemos em sociedade temos a experiência do conflito. Em uma proposta interessante, podemos buscar numa adaptação de Redorta (2004), exemplos de conflitos:

Figura 1: Tipos de Conflitos Referência: Adaptado de Redorta (2004), página 33

O conflito, pois, é parte integrante da vida e da atividade social, quer contemporânea, quer antiga. Ainda no esforço de entendimento do conceito, podemos dizer que o conflito se origina da diferença de interesses, de desejos e de aspirações. Percebe-se que não existe aqui a noção estrita de erro e de acerto, mas de posições que são defendidas frente a outras, diferentes. Diante a este debate conceitual, podemos verificar que as diversidades dentre do ambiente escolar geram o conflito, ainda mais se o campo de experiências dos indivíduos envolvidos nessas relações forem restritos, vivendo de forma alienada às suas realidades familiares e escolares, sem a ser propiciado a eles as mais diferentes experiências. Sabe-se que com a experimentação o indivíduo amplia sua atividade cerebral, sente-se encorajado e não se vê como um problema dentro de um contexto que acredita em não fazer parte.

O conhecimento científico é um constante jogo de hipóteses e expectativas lógicas, um constante vaivém entre o que pode ser e o que "é", uma permanente discussão e argumentação/contrargumentação entre a teoria e as observações e as experimentações realizadas. Nesse cenário os alunos experimentam novos horizontes, conhecem novas metodologias, conhecimentos, visões variadas sobre diversos assuntos, passa explorar e não receber a informação. O horizonte em nossa campo de experiência abre a nossa mente de forma tão ampla que passamos a compreender a nossa relação com o espaço e isso impede que o conflito se torne real, pois sei quem sou, meu dever, que existo, que além de aprender posso ensinar e assim vai. A experiência científica é orientada e mesmo valorizada pelo enquadramento teórico do sujeito, que em diálogo com ela, a questiona, a submete a um interrogatório, de respostas não definitivas. A experiência enquadra-se num método pouco estruturado, que comporta uma diversidade de caminhos, ajustando-se ao contexto e à própria situação investigativa. Os seus resultados são lidos como elementos (possíveis) de construção de modelos interpretativos do mundo e não cópias (e muito menos fiéis) do real.

Um novo pensar sobre a educação tem sido levantado nas últimas décadas. Construir um pensamento crítico constitui a sagacidade teórica da educação. Vivemos em tempos em que a sociedade situa-se na era da informação e do conhecimento, onde se apresentam os mais diversos recursos e meios de comunicação, que de maneira geral transforma a vida social, psicológica e interacional das pessoas, e sendo realizada de forma a ampliar horizontes, evitaremos conflitos. Por este motivo, cabe a comunidade escolar proporcionar oportunidades para a construção de um conjunto de saberes e habilidades, através de metodologias ativas que incluam os meios de comunicação de aprendizagem, a fim de integrar as técnicas cognitivas e emocionais dos educandos motivados pelo tempo digital e vincular os professores ao mundos dos alunos.

No projeto Educação Científica: Um Olhar para a Educação Básica, método aplicado em escolas periféricas, com cenários diversos de conflitos, os resultados foram de alunos que saíram de sua zona conflituosa para abrir seus horizontes com diferentes experiências em que os autores da pesquisa proporcionaram. A presença da pesquisa científica gerou debates intensos entre os variados cenários e colocaram em cheque as verdades que os alunos tinham de que não eram capazes. Do medo, se alcançou a curiosidade, das dificuldades a superação até alcançar os resultados e verifcarem as habilidades ali desenvolvidas.

Fecho esta reflexão com uma pergunta que Nadja Hermann faz em seu epílogo do livro "Ética e Educação: Outra Sensibilidade", a pergunta: Pode a Educação fazer justiça à singularidade do outro?"

A questão do outro e seu significado para a ética em educação exige, inicialmente, o deslocamento do horizonte da metafísica, que enclausura as possibilidades de abertura à alteridade, para o horizonte da facticidade. Isso implica reconhecer um problema para a educação, pois como diz o próprio autor "o sujeito autônomo e autodeterminado se constitui num processo de autorrelação e reflexividade, sem apelo à exterioridade". Ou seja, já na constituição da metafísica do sujeito moderno o outro não é considerado, podendo propiciar conflitos, como observamos na análise do próprio conceito aqui apresentado. Podemos referendar o quanto a educação se debate com essa questão nos conhecidos esforços pedagógicos em atender às peculiaridades dos alunos, desde a introdução de procedimentos metodológicos para se tornar o ensino mais ajustado às diferenças individuais.

Desse modo, convidamos a todos a refletir como a proposta de inserir a educação científica vai além do campo da ampliação das metodologias ativas, mas também como foco de evitar conflitos e dialogar sobre eles, podendo estes ser inclusive, temas de pesquisas pelos próprios alunos: Amplie os horizontes de seus educandos e o campo das experiências evitará que suas realidades sejam restritas aos seu cotidiano, fazendo estes a sonhar e buscar, sempre.

Referências

CHRISPINO, A.; CHRISPINO, R. S. P. Políticas educacionais de redução da violência: mediação do conflito escolar. São Paulo: Editora Biruta, 2002.

HERMANN, Nadja. Ética e Educação: Outra Sensibilidade. Autêntica, Belo Horizonte, 2014.

REDORTA, J. Cómo analizar los conflictos: la tipologia de conflictos como herramienta de mediación. Barcelona: Edicones Paidós Ibérica, 2004.