Humanidade e Vírus na História - Uma rápida visão


O Triunfo da Morte, Pieter Bruegel the Elder, 1562

Historicamente passamos por vários ataques de microrganismos ao longo de nossa história, alguns mais vorazes e mortais e outros com maior teor de contaminação, como o Corona Vírus (COVID-19). Necessariamente podemos entender que a Natureza realiza ações para equilíbrios mediante ao desiquilíbrio causado por uma praga, e sim, nós podemos e somos vistos como tal para o nosso planeta. A consciência de existência e sobrevivência nos faz refletir e buscar respostas na História em diferentes cenários gerados por epidemias e pandemias, o que nesse pequeno artigo venho trazer uma breve reflexão mediante ao contexto em que vivemos.


Segundo Rita Barradas Barata ( ), diz que Tradicionalmente foram classificadas como doenças endêmicas aquelas que apresentavam entre suas características epidemiológicas a variação espacial, isto é, uma distribuição espacial peculiar associada a determinados processos sociais ou ambientais específicos. Do mesmo modo eram classificadas como epidêmicas as doenças que apresentavam variações no tempo, isto é, apresentavam concentração de casos em períodos determinados, sugerindo mudanças mais ou menos abruptas na estrutura epidemiológica. Nisto, podemos verificar a diferença entre endemias e epidemias (a pandemia seria uma abrangência territorial maior da epidemia).


O século XXI pode ser conhecido como o "O Século do genoma", pois direta ou indiretamente, o estudo do DNA está a nossa volta, facilitando assim cada vez mais a nossa compreensão e nossa relação com esses vírus que nos atacam ao longo da História. O interessante aqui, é ressaltar que a nova ciências já se integra à Arqueologia para esclarecer parte de nossa História e prevenir surtos ao longo do tempo. Os cientistas já são capazes de resgatar vírus que infectaram animais ancestrais e que contribuíram para o surgimento de animais placentários, inclusive o próprio homem. Diante a este fato, Stejan Cunha Ujvari (2011), nos apresenta que os microrganismos mostram a trajetória seguida pelo homem desde a nossa saída do solo africano. Acusam também quais hominídeos o homem moderno pode ser encontrado pelo planeta na atualidade (convivemos como outros Homos?). Daí, a parte que aqui nos interessa, nos revelam ainda nossa provável rota de entrada na América, a época que iniciamos o uso de roupas e junto aos seus sítios arqueológicos mostram, agora, a presença de DNA ou RNA de microrganismos, demonstrando parte do caos instaurados em nosso corpo.


Por meio do DNA e RNA desses germes, podemos saber quando e como epidemias atuais (dengue, tuberculose, aids, gripes, ebola, hepatite e etc.) iniciaram-se de maneira lente e silenciosa anos e décadas atrás de que forma elas condicionaram a existência humana, matando populações, estimulando conflitos, infectando combatentes, promovendo êxodos, propiciando miscigenação, fortalecendo ou enfraquecendo povos, mas principalmente transformando hábitos humanos, o que passamos acreditar que o Corona Vírus poderá proporcionar.


Uma epidemia nasce a partir de sua mutação em animais provenientes de um determinado espaço geográfico, afetando a saúde humana, como por exemplo: os chipanzés na República do Congo, os porcos na região Asiática como um toco, os morcegos na China e assim vai. Nossos hábitos que propiciam a transmissão, focando principalmente na higienização.


A doença alastrou-se pela população africana de modo silencioso e lento. Ocultou-se entre as inúmeras mortes atribuídas às diarreias, desnutrição, tuberculose e pneumonias reinantes entre a população empobrecida (UJVARI, 2011)

O surto de Peste Negra em 1348 foi, sem dúvida, um dos piores desastres já registrados pelo homem. Não se deseja aqui recapitular a origem da peste no século XIV; para isso há inúmeras publicações, recentes ou não, que já discutiram o problema exaustivamente. Basta recordar brevemente que os testemunhos de época parecem ter atribuído, quase de modo unânime, a origem da epidemia à Ásia central, onde ela, aparentemente, existia em estado endêmico. Na Península Itálica, a epidemia teria chegado com os navios genoveses vindos do Oriente; a doença se alastraria após esses navios terem aportado em Pisa, como é destacado por alguns cronistas coevos

A Peste Negra pode ter trazido consigo uma grande mudança nas mentalidades: com efeito, as altas taxas de mortalidade parecem ter alterado na população a percepção quanto à proximidade da morte; esta, de fato, era sentida pela maioria como iminente. Esta mudança, por sua vez, poderia ter modificado os modos de busca pela salvação, que se tornaria para muitos quase uma obsessão. Lembrando que no período a Igreja Católica detinha para si a dominação da difusão do conhecimento e das atividades culturais, ampliando o teocentrismo cristão.


A redução brusca da população teve possivelmente um imenso impacto sobre os que sobreviveram, pois parecia trazer constantemente à memória a peste e suas terríveis consequências. Há relatos que mostram ainda certo anestesiamento do povo no que tange às perdas causadas pelo surto.Neste contexto, analisamos como uma epidemia conduz a mudanças de hábitos ou apatia ao desconhecido, já que na época não tínhamos a ciência presente no contexto.


Representação Mítica da Morte na Baixa Idade Média - Fonte: https://www.historiadomundo.com.br/idade-media/peste-negra.htm,


“Eu, Agnolo di Tura, conhecido por il Grasso, enterrei meus cinco filhinhos com minhas mãos (…); e não havia quem chorasse algum morto, uma vez que cada um esperava a [própria] morte” (Cronista, Agnolo di Tura)


Em 2009 o mundo passou por uma experiência envolvendo uma doença respiratória, causada pelo vírus de gripe Influenza A H1N1 caracterizada por um vírus híbrido de aves, suínos e humanos, que contaminou inicialmente pessoas na cidade de Oxaca no México.Com característica altamente virulenta alastrou-se rapidamente atravessando fronteiras em questão de semanas. Logo, o mundo se viu em meio a uma pandemia, em que as informações vinculadas pela mídia descreviam a doença como uma gripe altamente contagiosa com alta taxa de mortalidade.


Isto de imediato foi um agravante considerável que gerou aflição e até mesmo histeria generalizada em meio à população. O novo vírus H1N1 já era conhecido por causar importantes pandemias com incalculáveis mortes por todo o mundo. O fantasma da antiga “Gripe Espanhola” que ocorreu em 1918 e foi causada pelo mesmo vírus, surgiu como agravante já que sua retrospectiva histórica não era nada confortante.A Gripe Espanhola contaminou cerca de 50% da população mundial, causando a morte de aproximadamente 1% população mundial, determinando uma queda de 12 anos na expectativa de vida nesta época.


Folheto para Prevenção ao Contágio da Gripe Espanhola - Correio do Povo, Outubro de 1918


Correio Paulistano de 19 de outubro de 1918



Considerando toda essa reflexão, precisamos ver os cuidados que devemos ter com o CORONA VÍRUS (COVID-19) e compreender seu poder de transmissão, mesmo tendo sua mortalidade baixa. Historicamente esses microrganismos continuam a nos trazer surpresa, então se cuide e reflita.

Referências Bibliográficas


GOULART, AC. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde–Manguinhos. 2005


BARATA, Barradas Rita. Cem anos de endemias e epidemias. Ciências e Saúde Coletiva, Volume 5, páginas 333-335, 2000.


UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade contada pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos, Contexto, São Paulo, 2011.